Paulo Selbach, produtor e exportador de rosas na Ibiapaba A floricultura do Ceará já se apropriou da moderna tecnologia. Na Ibiapaba, o empresário Paulo Selbach produz e exporta 30 variedades de rosas e tem, em estufas, mais de 300 em testes, todas com cores diferentes
Há 15 anos, o senhor vendia calçados da Azaleia. Hoje, é produtor e exportador de rosas. O apelo da rosa é maior do que o do calçado?
Nós já plantávamos rosas havia muito tempo, desde o meu avô e meu pai. Eu, antes de vender sapato, também trabalhei com rosa até os 28 anos de idade. Foi aí que minha vida mudou, porque parei de trabalhar com flores e fui trabalhar numa fábrica de sapatos com o nome de flor, Azaleia. Mas essa coisa nunca sai da gente. O agricultor sempre será agricultor. O cheio de terra jamais nos deixa. Eu sempre quis um dia voltar, e acabei voltando aos 50 anos. Hoje, estou com 63. As coisas são assim mesmo.
Como foi apropriar-se da tecnologia de cultivar rosa?
Isso é um fato interessante e de extrema relevância. Primeiro, cada vez mais a tecnologia no plantio de flores tem se configurado algo muito importante. Hoje, você trabalha com irrigação, com sistema de água muito rígido, ninguém mais pode estar esbanjar água, e eu sou um dos grandes batalhadores por água na Serra da Ibiapaba. Hoje, me ponho como um cara que está na Ibiapaba para defendê-la, para preservar seu ecossistema. Antes, as coisas não eram assim. A tecnologia das flores veio extremamente forte. Você hoje tem empresas trabalhando com tecnologias fantásticas. Nós trabalhamos com pessoal de Israel, que cuida de toda a parte de irrigação; toda a parte de filme plástico para as nossas estufas também vem de Israel. Hoje, há faculdade na Colômbia com cadeiras específicas para a floricultura; nosso engenheiro, por exemplo, é colombiano; no Brasil, nós ainda não temos, mas vamos ter com a Unilab (Universiade Luso-Afro-Brasileira) que se instalará aqui no Ceará, na cidade de Redenção; teremos lá uma cadeira específica para flores. Eu vejo a tecnologia chegando ao Ceará, exatamente por causa desses empreendimentos. Agora, persuadir um comprador de sapato (risos) é algo assim... Sapato é algo que trabalha talvez com uma moda mais abrangente.
O sapato pede só o sentido da visão, enquanto a rosa exige também o olfato, não é?
Exige o olfato, a visão e a emoção. A rosa tem algo emocional. Por isso que os grandes consumidores de flores, no mundo, são pessoas que vivem emocionalmente algum momento, seja ele agradável ou não. A rosa existe para celebrar a felicidade.
Quando eu era menino, as rosas eram vermelhas, amarelas ou brancas. Hoje, elas têm dezenas de cores. Isso é segredo ou pode ser revelado?
Essa é uma das grandes mudanças tecnológicas. Há 30 anos, quando eu vendia flor, as cores das rosas eram mesmo só aquelas três. Não havia outras cores, e a vermelha era, como ainda é hoje, a que mais se vendia, principalmente em dias de festas. Mas tem uma coisa: a tecnologia fez com que o "breeder" - que é o melhorista, ou seja, o especialista que trabalha com a genética das flores - revolucionasse a floricultura. Foram mudanças fantásticas registradas nos últimos 20 anos. Hoje, você tem, em uma única pétala de rosa, até três cores diferentes. Isso tudo é avanço genético. Isso é trabalho dos melhoristas, é ação dos "breeders", é uma coisa muito técnica. Eu conheço os principais "breeders" do mundo, que são alemães, holandeses, franceses e italianos. Eu conheço cada uma das empresas de "breeders". Quando você entra lá é como se você entrasse em um grande farmacêutico mundial.
No seu roseiral, na Serra da Ibiapaba, quantas variedades de rosas são cultivadas hoje?
Hoje, em produção instalada para o mercado, isto é, em escala, estamos com umas 30 variedades. Mas no nosso laboratório de testes - uma estufa com 5 mil m² - temos mais de 300 variedades em testes. São variedades que os "breeders" nos mandam.
Cada variedade tem uma cor, tem nome, tem registro e tem DNA. Por isso é que uma variedade, criada em clima frio, pode chegar aqui no nosso clima tropical e experimentar uma mutação genética, natural. Não é, porém, com essa mutação que vou chegar lá na Europa e dizer aos "breeders" que eu melhorei a planta. Nada disso, a genética dela, o seu DNA segue sendo o mesmo. A única coisa que pode mudar é a coloração. Você pode ter uma cor diferente aqui, outra ali. O plástico que você usa na estufa pode causar mudança na cor da variedade, porque a tecnologia do plástico também mudou. Você pode tornar mais vermelha uma flor vermelha, usando a fértil irrigação.
Na Europa, usa-se a rosa para presentear. Aqui no Brasil esse hábito já chegou?
Repare: um russo, por exemplo, quando vai receber um amigo no aeroporto, leva uma flor para lhe dar de presente. Isso faz parte da cultura deles. Uma dona de casa alemã ou francesa, quando vai ao supermercado, inclui flores na lista de compras. Aliás, o supermercado é o lugar que mais se vende flores no mundo. O Walmart é o maior comprador - e, obviamente, vendedor - de flores do planeta. Disparado.
Por que essa febre pelas flores?
Porque você está embelezando sua casa. Na Europa, nos Estados Unidos, onde se consome muito, a flor faz parte da cesta básica do consumidor. No Ceará, isso tem mudado bastante. Hoje, já se vendem rosas nos supermercados de Fortaleza.
O senhor e o Ceará eram os maiores exportadores de rosas do Brasil. Por que não o são mais?
Por causa do câmbio. O real valorizou-se muito e isso prejudicou enormemente as exportações. Mantemos apenas as vendas que são importantes do ponto de vista estratégico. Depois, por causa da péssima logística de transporte. Rosa é um produto perecível. Não pode ser tratada como uma caixa de vinho. Rosa você tem de mandar de avião. Para dentro do Brasil, ainda se pode usar o caminhão refrigerado, mas correndo sérios riscos pela precariedade das rodovias. Este é o maior gargalo com que se defronta a floricultura no Ceará.
Como assim?
O Ceará já deveria ter 300 a 400 hectares de roseiras plantados. Só temos 70 por causa do gargalo da logística. O aeroporto Pinto Martins não comporta um avião tipo Jumbo, que possa sair daqui, lotado de carga e de combustível, direto para Amsterdam ou Paris. Faltam 500 metros de pista.
O aeroporto de Jericoacoara poderia resolver isso?
Não acredito. Os aviões que trarão turistas para Jericoacoara não farão voos regulares. O voo de transporte de carga tem de ser algo exclusivo. O Kênia, que tem 4 mil hectares plantados de rosa, instalou uma logística impressionante: o Jumbo entra direto na câmara fria, abre o seu bico e os contêineres são embarcados por esteiras. Todo dia, quatro Boeing 747 decolam do Kênia carregados de rosas para a Holanda. O Kênia fica na África. Por que o Ceará não pode dispor de algo eficiente assim?
Se essa logística melhorar, outros empresários investirão no que o senhor tem investido?
Os EUA importam flores da Colômbia, do Equador e do México. A floricultura nos EUA acabou porque é caro o custo de produzir lá. Rosa você produz em países pobres, porque a mão de obra que se usa por hectare é em torno de 15 a 18 pessoas. Em 10 hectares, você terá 150 a 180 funcionários. Na Holanda, por causa desse custo, não se cultivam mais flores. O holandês as produz na África. Eles poderiam vir para cá, mas teríamos de oferecer-lhe algo mais, além de uma boa logística, como a entrada de material vegetal.
Dos calçados às rosas
Solo e clima a favor
Plantar flores é cultivar a semente do amor. Plantar rosas é mais do que isso - é fazer desabrochar o amor em estado puro. Quem o diz é o empresário gaúcho Paulo Selbach, ex-campeão de venda dos calçados Azaleia e hoje o maior produtor de rosas do Estado. Quando o câmbio ajuda, ele se torna o maior exportador, também. No Ceará há 30 anos, Selbach, seu forte sotaque sulista e sua vocação para os negócios conquistaram a amizade e a confiança dos cearenses, cujo Governo lhe ofereceu - ainda no segundo mandato do governador Tasso Jereissati - os incentivos de que precisou para a implantação de sua empresa - a Cearosa - em São Benedito, na Serra da Ibiapaba, onde o solo e o clima são ideais para a floricultura de alto padrão. O roseiral da Cearosa ocupa cerca de 100 hectares, dos quais 70 produzem em estufas modernas com a mão de obra de 250 pessoas, 95% das quais arrebanhadas na região. Se o Ceará dispusesse de uma logística de transporte eficiente - boas estradas, aeroporto com pista de 3 mil metros, por exemplo - a Ibiapaba já estaria abrigando as grandes empresas internacionais da floricultura e concorrendo com os maiores produtores mundiais de rosas - Colômbia, Equador, México e Kenia. Na Europa e nos EUA, o custo da mão de obra tornou impossível a produção em escala de rosas. Então, a saída é investir em países pobres. É o que Selbach tem feito. Sua produção, que era quase toda destinada ao mercado europeu, está agora dirigida ao mercado interno brasileiro, que cresce cada vez mais. Por causa da valorização do real - que onera a produção e reduz o lucro - as vendas para a Europa estão reduzidas aos clientes estratégicos, pois o câmbio pode mudar a qualquer hora. Selbach é otimista: "O futuro da floricultura cearense é promissor, multicolorido e perfumado", diz ele.
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/
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