FÁTIMA FERNANDES / CLAUDIA ROLLI
Lojas virtuais e sites que vendem produtos eletroeletrônicos afirmam que seus custos são menores do que os do comércio tradicional, o que permite tornar os preços mais competitivos e oferecer mercadorias até pela metade do preço. Isso não significa, segundo eles, que estejam praticando "concorrência desleal".
O Mercado Livre informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que os preços dos produtos que anuncia podem estar menores porque podem ser seminovos ou porque o usuário que já tem um home theater, por exemplo, ganha outro de presente e, em vez de trocar por outro produto, decide vender por meio do site.
"Se o consumidor entrar no site de grandes redes varejistas, verá que, muitas vezes, os preços anunciados na internet são inferiores aos praticados na loja física. Isso porque locar uma loja no shopping custa muito mais caro que um espaço na internet", afirma, em nota, o site www.mercadolivre.com.
Além do custo do espaço físico ou da locação dele, o site informa que, no comércio virtual, os custos com a contratação de pessoal, os estoques e a logística são inferiores e, por essa razão os produtos podem ser oferecidos por preços menores.
"As grandes redes varejistas empregam milhares de pessoas que atuam em suas lojas físicas. Quantas pessoas são necessárias para atuar numa loja virtual? Na web, você não sabe se aquela empresa é grande ou pequena, mas, sim, se é séria e cumpre com o prometido."
"No Mercado Livre, existem milhares de microempresas com um funcionário: o próprio dono. É ele que, muitas vezes, cuida de tudo: compra do produto, publicação do anúncio, negociação, venda e entrega. Com o crescimento dos negócios, esses microempresários acabam trazendo para a operação seus familiares e amigos."
A Byte Shop Info informa que sua forma de trabalho é diferente. "Não possuímos folha de pagamento gigantesca nem despesas. Com isso, podemos ter uma margem de preço melhor. Sem falar também que os impostos para as microempresas são menores."
No Brasil, diz a Byte Shop Info, "existe muito produto com importação ilegal, encontrado facilmente na rua Santa Ifigênia [região central da capital paulista], sem impostos".
A Ciavirtualmix preferiu não comentar o caso. Videosonic e Etronics não retornaram telefonemas nem responderam aos e-mails da reportagem. A Receita em São Paulo não quis comentar o assunto.
Um grupo de lojistas que vende produtos de áudio e vídeo, software e equipamentos para automação residencial acusa lojas virtuais de venderem os mesmos produtos a preços abaixo do custo.
Para enfrentar o que consideram "concorrência desleal", lojistas dos Estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul decidiram montar uma associação com o objetivo de ter mais poder para pedir fiscalização intensa da Receita Federal e das Fazendas estaduais nas lojas que só vendem pela internet.
Levantamento feito por lojistas na semana passada mostra que preços de produtos vendidos em suas lojas e em lojas virtuais têm diferença da ordem de 50%, ou seja, metade do preço. Citam exemplos. Receiver da marca Marantz modelo SR 8002, vendido por eles por R$ 9.900, custa R$ 5.500 em loja virtual. Projetor Sony modelo VPL-EX4, comercializado por eles por R$ 3.799, sai por R$ 2.395 em lojas on-line.
"Estamos sofrendo concorrência desleal com lojas virtuais que vendem produtos a preços que são custos para nós. E essas lojas virtuais não são distribuidoras oficiais no país", afirma Claudia Ribeiro Siscar, diretora da Cinema 1, revenda localizada em Bauru (SP) e especializada em equipamentos eletrônicos de áudio e vídeo para casa. A Cinema 1 é uma das lojas que deverá fazer parte da associação que pretende reunir no mínimo 12 lojas no país.
"As lojas virtuais com preços abaixo do custo estão se proliferando no país e tirando mercado da gente. Compro por R$ 7.600 um receiver Onkyo e vendo por R$ 11.600, incluindo margem [de lucro] e impostos. Em loja virtual, o produto custa R$ 6.300. Assim não dá para competir", diz Fernando Ely, gerente administrativo da Áudio e Vídeo Ltda., revendedora de equipamentos de áudio e vídeo para casa.
As lojas virtuais mais agressivas em preços, segundo eles, são Ciavirtualmix, Videosonic, Byte Shop Info e Etronics. Eles criticam também o Mercado Livre. "Os preços que saem no Mercado Livre viram parâmetro do mercado brasileiro", diz a diretora da Cinema 1.
A Folha procurou as lojas virtuais e o que elas informam é que os custos de um comércio virtual são muito menores do que os de lojas físicas, o que faz com que possam oferecer preços mais baixos para os consumidores. Elas dizem ainda que o que existe no país é concorrência de mercado, e não disputa desleal.
Não há fiscalização
Ely diz que procurou a Receita Federal no Rio Grande do Sul e em São Paulo para pedir fiscalização em lojas virtuais. "Não tive sucesso. O que me disseram é que falta pessoal para fazer a fiscalização. É preciso ver se esse pessoal está importando de forma legal ou não."
A Áudio e Vídeo e a Cinema 1, segundo Ely e Siscar, poderiam faturar de 30% a 50% mais se não fosse a concorrência com as lojas virtuais. "O pior é que os consumidores que compram nessas lojas acabam depois procurando a gente para dar assistência técnica. Nós não aceitamos", afirma Ely.
Eduardo Troiano, diretor comercial da Troiano's, loja em São Paulo especializada em equipar casas com produtos de áudio e vídeo, diz que a proliferação de lojas virtuais que vendem por preços abaixo do custo só será combatida com ação de fiscalização da Receita Federal na internet.
"O consumidor tem de abrir o olho quando opta por comprar em sites. Ele tem de saber a origem do produto, se há garantia no Brasil e quem está trazendo a mercadoria do exterior, pois o barato pode sair muito mais caro", diz Troiano.
Distribuidora de várias marcas de equipamentos de áudio e vídeo no país, a Syncrotape informa que sofre concorrência desleal principalmente com marcas que entram no país pelo Paraguai. "Somos revendedores exclusivos da Denon no Brasil, só que a marca também está disponível no Paraguai. Resultado: lojas virtuais vendem no Brasil por preços 30% a 40% mais baratos os mesmos produtos que ofereço. Isso não é possível, pois a matemática não fecha", afirma Nelson Zen, gerente administrativo da Syncrotape. "Se não houvesse essa concorrência desleal, estaríamos vendendo 50% mais."
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica
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