segunda-feira, 31 de março de 2008

BRASIL PRECISA INVESTIR MAIS NA FORMAÇÃO DE TÉCNICOS




O Brasil terá de correr contra o tempo para se recuperar da falta de investimento em educação nos últimos anos, especialmente no ensino técnico. O diagnóstico foi feito pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), após a análise detalhada dos números ligados à educação brasileira. "Os tempos ruins fizeram com que empresas e o governo deixassem de investir em capacitação e agora eles vão pagar o preço pela falta de pessoal habilitado", afirma o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio.
Para se recuperar, os desafio são grandes. Como investimentos em educação demoram para começar a aparecer, a falta de profissionais vai levar muitas empresas a um autêntico "garimpo" por talentos. "Muito torneiro mecânico e mestre de obra que viraram garçom nos últimos anos ganharão espaço nesse novo cenário", diz Lúcio.
A radiografia do "apagão educacional" feita pelo Dieese mostra ainda que as despesas da União com a manutenção e desenvolvimento do ensino chegou a R$ 19,6 bilhões em 2006, 113% acima dos R$ 9,2 bilhões registrados em 2001 e 44% a mais que em 2005. A maior parte dessas despesas se concentra no Ensino Fundamental, com 48%, e só 6,4% são destinados a Ensino Médio, onde se concentra o aprendizado técnico. Especificamente, só 1,7% vai para o Ensino Profissionalizante, enquanto o Ensino Superior fica com 12,9% do bolo.
O aumento dos investimentos deve reduzir a taxa de analfabetismo no Brasil, conforme as projeções feita pelo Dieese, passando de 11,1% em 2005 para 8,2% até 2015. Na Argentina, esses números chegaram a 2,8% em 2005 e devem cair para 2,1% até 2015. No total, a região da América Latina e Caribe concentrava 9,5% de analfabetos em sua população em 2005 e deve reduzir para 7,1% até 2015.
Essa redução, entretanto, só se dará a custa de muito investimento, segundo o Dieese. A Alemanha, por exemplo gasta por estudante US$ 7.368 ao ano do primário até o ensino superior. Já o Brasil gasta apenas US$ 1.242 e Argentina US$ 1.625. A Coréia, modelo mundial de investimento em educação, gastou em 2003 US$ 5.733 e o Chile US$ 2.876. Os EUA e a Suíça lideram os investimentos em educação, com gastos em torno de US$ 12 mil por estudante.
"O estudo aponta todas as carências e indica que, se não houver investimento real em qualificação, o crescimento econômico pode estar comprometido", afirma o diretor. Para ele, em função da demora da maturação deste investimentos, será muito mais fácil, apesar de tudo, tentar achar os profissionais que atuavam anteriormente no mercado do que esperar pelos novos que sairão das escolas técnicas. "É mais fácil contratar um torneiro experiente, mesmo que se tenha de capacitá-lo para trabalhar nas novas máquinas. Além disso, ele pode liderar uma equipe de jovens passando seu conhecimento e acelerando o aprendizado dos novatos".Isso deve ampliar o mercado para aqueles profissionais com mais de 40 anos, que trazem na bagagem todo o conhecimento essencial para as empresas neste momento. A remuneração também deve melhorar por conta da falta de profissionais no mercado. "A combinação de gente com e sem experiência é muito boa, mas para profissionais mais qualificados não tem jeito, será preciso pagar mais para conseguir", explica o diretor.
Dessa forma, o Brasil começa a pagar a conta por tantos anos de abandono da educação. Na Alemanha, cerca de 70% dos profissionais tem ensino técnico ou tecnológico. No Brasil, aproximadamente 20% da mão de obra, juntando-se todos os tipos de formações especiais, têm ensino técnico. Em muitos casos, as pessoas buscam o ensino superior quando o mercado precisa do técnico.

Fonte: Gazeta Mercantil 20/3/2008
Escrito por Alexandre Siqueira às Quinta-feira, 20 Março

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