segunda-feira, 31 de março de 2008

MANDARIM SERÁ LÍNGUA OFICIAL NAS MESAS DE NEGOCIAÇÃO

Segunda-feira, 10 Março 2008

Assim como o latim já foi, um dia, o idioma mais influente no planeta, o inglês é hoje a língua predominante nas relações internacionais. Mas, graças à ascensão da China como principal país em desenvolvimento - com seus 1,3 bilhão potenciais consumidores - este quadro começa a mudar. Uma pesquisa encomendada pelo Fórum Econômico Mundial em 2007 e divulgada em janeiro deste ano, mostrou que o mandarim seria o escolhido pela maior parte dos líderes globais (43,9%), caso tivessem de aconselhar um jovem amigo ou parente sobre o estudo de um idioma. No levantamento, o mandarim superou o inglês (38,8%) e o espanhol (9,4%). A exemplo do que já aconteceu com o latim e o inglês, a tendência é de que, em um breve futuro, o mandarim torne-se o idioma mais falado nas mesas de negociação. "Na minha visão, o mandarim será como o inglês hoje", projeta o diretor de China Desk da KPMG no Brasil, Hsieh Yuan. "Hoje, boa parte das informações relativas à China e que trazem impacto às negociações continuam sendo geradas em mandarim. Assim, quem tiver a vantagem de ouvir uma rádio ou assistir um programa de TV em tempo real terá acesso a informações que somente algumas horas depois ou no dia seguinte terão sua versão em inglês", diz o consultor. Segundo o responsável pela divisão de engenharia da Michael Page no sul do País, Cristiano Aron, de 10% a 15% das empresas do setor que mantêm algum tipo de relacionamento com a China já buscam profissionais com domínio do mandarim. Por isso, informa Aron, o executivo que fala o idioma tem uma remuneração em média 20% a maior do que aquele que fala somente o inglês. Um gerente de médio escalão com inglês fluente, por exemplo, ganha na faixa de R$ 8 mil a R$ 10 mil. Entre os que falam mandarim, o salário pode chegar a R$ 12 mil. "Hoje, o profissional com mandarim disposto a seguir em frente está valorizado", comenta Aron. "O que acontece é que o inglês falado pelo executivo chinês não é perfeito. E isso faz com que muitas vezes ele não entenda tudo o que se fala em uma reunião", explica. Segundo Hsieh Yuan, da KPMG, a busca por profissionais com domínio do mandarim cresceu sensivelmente nos últimos anos em função do grande afluxo de companhias de todos os continentes à China. Na última década, diz ele, mais de 150 mil empresas da Europa e dos Estados Unidos instalaram bases no país. Por outro lado, muitas empresas chinesas passaram a atuar fora da China. A expansão obrigou a consultoria a montar um serviço especial para atender as subsidiadas chinesas dentro e fora da China, criando equipes específicas com biculturalidade e conhecimento técnico e cultural suficientes para auxiliar na comunicação entre os mundos ocidental e oriental. "Os processos de raciocínio entre o chinês e o brasileiro são diferentes", explica Yuan. "O serviço visa facilitar a comunicação e aumentar a velocidade, dentro do que se exige hoje." Sino-exaltação. De olho nesta tendência, muitas instituições de ensino mundo afora estão incorporando o mandarim às opções oferecidas aos seus alunos. Segundo estatísticas do Ministério da Educação da China, mais de 30 milhões de pessoas no mundo estão aprendendo chinês. No total, mais de 2,5 mil universidades em cem países oferecem cursos de chinês. Falado por 94% dos chineses, o mandarim possui 80 mil caracteres, chamados de "hanzis", dos quais 7 mil são mais usados. No Brasil, até o alemão Colégio Humboldt, que forma seus alunos em português e no idioma de Goethe, investe na iniciação ao mandarim - ainda que de forma extracurricular. São dois cursos, voltados aos alunos do sétimo ao nono ano (antigas sexta a oitava séries) e do ensino médio. As aulas são ministradas pelo professor David Jye Yuan Shyu, responsável pelo Departamento de Línguas Orientais da Universidade de São Paulo (USP). "Nesta época de globalização, a gente vê o chinês como o ‘latim do passado’ e o ‘inglês do futuro’", comenta o vice-diretor da escola, Herbert Zorn. "Essas coisas acontecem cada vez mais rápidas. Acredito que daqui a poucas décadas, se chegar a tanto, o chinês passará até o inglês em importância." A Business School São Paulo, por meio da Universidade Anhembi Morumbi, lançou recentemente o programa Global Extension, que dá oportunidade a seus alunos de vivenciar experiências internacionais. Entre as atividades propostas está o curso "Discovering Business in China". Já a franquia de São Paulo da Berlitz International, uma das principais empresas de serviços de idiomas do mundo, oferece um curso on-line de mandarim. Além disso, também disponibiliza o programa "Doing Business in China", também on-line, que mostra as principais diferenças culturais que envolvem as práticas de negócios na China. Trânsito cultural. A questão cultural, de uma forma mais ampla, também deve ser preocupação dos executivos interessados em atuar ou interagir com o mercado chinês. Na opinião do presidente da Escola de Marketing Industrial e diretor da consultoria JCTM, José Carlos Teixeira Moreira, mais do que o domínio do mandarim, as empresas esperam dos profissionais o entendimento e respeito às diferentes culturas. "O que mais estão pedindo é trânsito cultural, ou seja, se eu falo mandarim ou inglês e me porto na China com respeito aos rituais chineses", explica Moreira. "Os rituais expressam valores. Por isso, mais importante do que falar o mandarim, é respeitar os rituais."
Uma das razões para que os ritos sejam tão considerados é a grande quantidade de variações dos idiomas falados na China. Embora o mandarim (dialeto de Pequim) tenha sido a língua adotada oficialmente em um plebiscito na década de 1960, o país conta com mais de 300 dialetos. Mas o motivo principal para a atenção aos detalhes extralingüísticos é que, no Oriente, um ato banal cometido normalmente no Ocidente pode antecipar o fim de um encontro e até, em casos extremos, detonar de vez com uma negociação (ver quadro). "Para um chinês, acenar com a cabeça não quer dizer que se está concordando, mas que entendeu o que o interlocutor falou", exemplifica Yuan, da KPMG. Por isso, especialmente na China, é importante para o executivo manter os olhos bem abertos.

Fonte: Gazeta Mercantil 10/3/2008

Escrito por Alexandre Siqueira às Segunda-feira, 10 Março 2008

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