Empresários brasileiros e argentinos decidiram deixar de lado os contenciosos e partir para uma agenda positiva de integração de negócios. Este foi o tom do discurso que o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, estabeleceu no comando da missão composta por mais de 100 empresários que começou ontem, em São Paulo, a cumprir uma agenda com mais de 400 reuniões e contatos com empresários brasileiros, com foco ajustado para a realização de negócios. As transações comerciais entre Brasil e Argentina movimentam aproximadamente US$ 25 bilhões ao ano, mas nem o superávit de cerca de US$ 4 bilhões na balança comercial, a favor dos brasileiros, representou um desconforto.
Segundo o ministro argentino, que participou ontem da abertura da primeira rodada de negócios na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a decisão de aprofundar as relações entre Brasil e Argentina é estratégica e foi definida nos encontros entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a presidente Cristina Kirchner. Para Taiana, o Mercosul é uma ferramenta fundamental para integração da região e alertou para a necessidade de se criar ferramentas financeiras que ajudem a destravar as atividades.
O momento é positivo para ambos os países, na avaliação de Taiana. O incremento constante da economia brasileira é acompanhado pela expansão da economia argentina, que cresceu 8,7% em 2007. "As perspectivas para o mercado mundial nos fazem prever que o crescimento da Argentina será sustentável para os próximos anos", declarou Taiana. A missão bilateral será encerrada dia 28 e inclui Belo Horizonte (MG) no roteiro.
Paulo Skaf, presidente da Fiesp, afirmou que nos encontros entre brasileiros e argentinos realizados no passado muito tempo foi perdido nas discussões do que classificou como "pequenos problemas, questões menores que muitas vezes tomam a agenda". Segundo Skaf, estes pontos de atrito devem ficar fora das rodadas negociais. "Nós não estamos aqui para discutir contenciosos. Hoje, aqui não se vai discutir questões pontuais". Para ele, os desentendimentos devem ser exceções. "A regra deve ser o perfeito entendimento e é isso que nós temos que buscar em nossas relações", declarou Skaf, que no segundo semestre parte com um grupo de empresários brasileiros para Buenos Aires em uma segunda etapa de contatos.
A iniciativa privada terá um papel essencial para o secretário geral do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, Samuel Pinheiro Guimarães, "é preciso promover a integração de nossas economias" e, de acordo com ele, "esse é um processo que só pode ser feito pelos empresários".
O comportamento dos empresários está baseado nos resultados recentes, na avaliação de Mário Marconini, diretor de Negociações Internacionais da Fiesp. "A gente criou uma espécie de mania de reclamar do Mercosul e achar que está tudo errado com base em alguns pontos", diz Marconini. "Mas a verdade é que o comércio cresce", afirma. Os eventuais desequilíbrios da balança comercial e no fluxo de investimentos entre os países podem entrar nas discussões bilaterais, mas não são necessariamente negativos. "Não é bem assim que os empresários pensam, eles querem atividade econômica".
Para Marconini, pode ocorrer alguma queixa quando um determinado segmento se sentir afetado; podem surgir comentários sobre o caráter "explosivo" do crescimento econômico argentino e do controle de preços. "Não deixa de ser verdade também que (Brasil e Argentina) são países que resolveram não ser guiados por agendas externas. Acho isso muito positivo. Não é que eu seja contra ou a favor do Alca. Não é bem isso. Mas a verdade é que passamos os anos 90 e a metade dessa década falando de agendas importadas e esses países estão fazendo uma espécie de retiro budista, tentando olhar para si mesmos para ver do que são capazes".
O risco desta postura é ficar "deslumbrado" com o fato de ter descoberto o que se quer e esquecer o que ocorre no mundo. " Acho que o maior problema do Mercosul é que ainda não tem uma visão de mundo. Não conseguimos dizer onde é que ele se insere no mercado mundial. Como bloco, a gente deveria definir isso".
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