quarta-feira, 16 de abril de 2008

CRESCE A BUSCA DE GENTE COM FORMAÇÃO EM MATEMÁTICA


A INOVAÇÃO QUE CONTA
Por: Clemente Nobrega*
Coloque-se na pele de um jovem ambicioso que se sente atraído por idéias empreendedoras. É um jovem inteligente o suficiente para não almejar ser Bill Gates: ele quer apenas fazer sucesso. É certo que as possíveis escolhas dele estarão orientadas para atividades que têm a ver com os caminhos que o dinheiro tende a percorrer - os caminhos da inovação. O que ele deveria estudar? Estou falando pragmaticamente, deixando de lado escolhas mais vocacionais (e totalmente legítimas), como artes, humanidades ou ciência pura. Atividades assim não informam de modo previsível o mundo da inovação para as massas, que é o nosso tema aqui. O que informa, então? Bem, os conhecimentos-chave para a "inovação que conta" são logística (engenharia de produção), matemática e sistemas de informação (TI). Todos os exemplos que vimos têm relação com esses saberes. Matemática, é?
Cresce a Busca de Gente com Formação em Matemática
É, sim, matemática aplicada é a solução de problemas práticos do tipo "como ganhar dinheiro com um serviço de motoboys?". Ou "como entregar concreto na hora exata?" Ou... Não vou repetir. Voltemos à eCourier, exemplo que só citei para ter um pretexto para falar de matemática. A chave do serviço está em escolher o mensageiro mais bem posicionado para fazer a entrega. Aquele que o sistema GPS mostra ser o mais próximo do local da coleta não é necessariamente o mais apropriado. Por exemplo, um mensageiro em São Paulo, que esteja a apenas algumas centenas de metros de um endereço de coleta, pode levar 20 minutos para passar de uma pista da Avenida Marginal para outra, na direção oposta. Outras informações, como condições do tráfego e a performance individual de cada mensageiro, também têm de ser consideradas. Como escolher o motoboy mais apropriado? Isso é um problema matemático, e a eCourier passou algum tempo procurando alguém capaz de resolvê-lo. A equipe conduzida por Cynthia Bernard, perita em logística do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA, inventou um algoritmo complicado, que está agora no coração do negócio da eCourier, embutido em seu sistema (TI), da mesma forma que um algoritmo matemático dirige o Google. Note que o problema é o mesmo da Cemex para direcionar seus caminhões. Matemática é importante em toda "inovação do tipo Wal-Mart". Otimização de fluxos de informação ou de coisas físicas, como caminhões de concreto, mercadorias em centros de distribuição ou motoboys, requer matemática. Há um extenso mercado se abrindo para a matemática aplicada ao mundo da informação em negócios. Não precisa se assustar, não é para nós, mas o futuro mostrará que as empresas realmente inovadoras se apoiarão muito em profissionais com base matemática, pois ela é essencial para possibilitar o uso imaginativo da informação. Se você tem filhos bem jovens, é provável que um deles decida se tornar otimizador de mecanismos de busca. É que por causa do sucesso dos Google e Yahoo! da vida, há uma demanda crescente para essa atividade. É assim. Você tenta decifrar a matemática por meio da qual o Google faz suas buscas, e monta o site de sua empresa de modo que, quando alguém digitar (no Google, por exemplo) o nome genérico do produto que você tem para vender, o seu site apareça em primeiro lugar. Isso pode significar milhões de dólares em lucros extras. Como explica Thomas Friedman: "Se quando alguém busca por 'vídeo câmera' o produto que sua empresa fabrica aparecer primeiro, as pessoas que vão clicar no seu web site são aquelas que mais provavelmente vão comprar de você". Os otimizadores de mecanismos de busca desenham estratégias de marketing via web para que as vendas de seu produto aumentem. No Sunnyvale (Califórnia), no campus do Yahoo!, o chefe de pesquisas Prabhakar Raghavan lidera uma equipe de 100 matemáticos e cientistas especializados em computação. Rabiscando em um quadro branco cheio de equações, Raghavan descreve a imensa base de dados que registra as atividades online de 200 milhões de pessoas registradas no Yahoo!. É o patrimônio mais precioso da empresa. Há um mundo inteiro de negócios não inventados, que nascerão à medida que o Yahoo! descubra novos modos de satisfazer impulsos, curiosidades e desejos dessa base de clientes. Esses negócios futuros estão escondidos (presos!) nos oceanos de dados da empresa. O trabalho de Raghavan é examinar minuciosamente esses dados e garimpar novas conexões entre consumidores, comerciantes e anunciantes.
Lembre-se: Os mesmos princípios podem ser aplicados a qualquer tipo de empresa. Pense num hospital. Médicos, em geral, ficam doentes quando têm de submeter-se a procedimentos protocolares - são notoriamente avessos à disciplina operacional. Essa é uma das razões pelas quais os custos de grande parte dos hospitais (a maioria) fogem do controle. Hospitais (para ganhar dinheiro) precisam de gestão da produção, como uma fábrica. Precisam de práticas para eliminar gargalos no fluxo de pacientes que chegam à emergência, na ocupação dos leitos das UTIs, nas visitas dos médicos a seus pacientes internados e conseqüentes altas, nos procedimentos operacionais das intervenções que são realizadas, na programação da distribuição de remédios pela farmácia etc...
Gargalos em hospitais são "estoques de gente" - ou esperando para ser atendida, ou esperando para ser liberada. É urgente introduzir a mentalidade Toyota/Wal-Mart nos hospitais. Há muitos estudos mostrando como uma atenção mais "engenheirada" a essas coisas aumentaria a eficiência (menos custo, mais qualidade), mas são raríssimos os hospitais que praticam essa disciplina. Fale disso, e alguém arregalará os olhos: "Mas hospital é diferente. Não é supermercado, não é empresa aérea, não é montadora de carro". Errado. É igual, sim. Em termos de negócio, é igualzinho. Sincronize informações para otimizar o fluxo de coisas de A para B (seja pacientes num hospital, seja pacotes de fraldas descartáveis num supermercado) e você libertará dinheiro preso. O problema da maior parte dos hospitais não é medicina, é engenharia.
Eis o resumo da coisa: Inovação como disciplina se pratica por meio do uso imaginativo (não genial) de conhecimentos que estão ao alcance de todos. Isso se faz usando tecnologia da informação, matemática e logística, para conceber novas maneiras de se fazer velhas coisas, para reconfigurar processos de negócios que já existem ou criar novos conceitos de negócio.
A carreira profissional associada a isso deveria chamar-se gestão da inovação, em vez de administração de empresas. Uma boa carreira para começar nesses temas é engenharia de produção. As coisas não são assim porque eu queira, ou porque não goste de Steve Jobs (admiro o cara; para mim, é o maior inovador da segunda metade do século 20). É assim por razões econômicas. O dinheiro do mundo está gravitando em direção à eficiência. Rapidez. Fluidez. Entrega. Paradoxalmente, quanto mais a economia se torna digital/virtual, maior a necessidade de orquestrar o fluxo de coisas físicas de A para B. O velho mundo cheio de caminhões, engarrafamentos, contêineres, supermercados, construções, depósitos e aviões está cheio de oportunidades encarceradas pela falta de imaginação e de conhecimento.
Esse mundo está sendo transformado pelas novas sensibilidades que a tecnologia inspira, e tanto os negócios como nós próprios estamos sendo modificados. Ninguém - nem empresa, nem pessoa - será relevante neste velho novo mundo, sem atenção às possibilidades da informação conectada. Ritmo, fluidez, sincronização... Não resisto ao pensamento de que a lógica das transações comerciais está ficando mais bio, cada vez mais biológica. Uma coisa viva parece estar emergindo dessa dança. Aquele centro de distribuição do Wal-Mart lembra o sistema nervoso de um organismo complexo. A dinâmica da inovação que descrevi tem tudo a ver com isso. Ou abraçamos ativamente essa nova lógica, ou seremos desprezados pelo novo velho mundo. Quem quer ser ator, e não figurante, não tem opção. Ou corremos decididamente a seu encontro, ou seremos irrelevantes nele. É inovar ou morrer.

*Clemente Nobrega é físico, escritor e consultor de empresas. Seu livro mais recente, Empresas de Sucesso, Pessoas infelizes? foi publicado pela editora Senac Rio.

Fonte: http://epocanegocios.globo.com

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